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O Tormento mora ao lado

 Não, não é fácil conviver bem com um vizinho cheio de hábitos
diferentes dos seus. E você nem imagina o quanto deve ser
difícil para ele conviver com você.

POR MARIANA SANTOS
Relaxar no aconchego da sua casa nunca foi tão difícil. Um misterioso

 
Relaxar no aconchego da sua casa nunca foi tão difícil. Um misterioso
vazamento vindo sabe-deus-de-onde te surpreende toda vez que você
entra no banheiro.  Todos  os  dias  o  mesmo  punhado  de  cocô  de
cachorro insiste em "brotar" bem na sua porta. E de uns tempos para
cá inexplicavelmente começou a chover serragem na sua varanda. Seu
vizinho pode estar por trás disso. Se você mora em apartamento, ele
também pode estar pelos lados, em cima ou embaixo.
Capaz de despertar os seus mais primitivos instintos homicidas, ele
irremediavelmente mora lá e - por mais que a vontade seja essa - você
não tem para onde correr. A vingança da cola Super Bonder na fechadura
pode até te trazer alguns momentos de prazer e a falsa sensação de que
"agora sim, estamos quites", mas a verdade é que não resolve de fato a
situação. Aliás, talvez até piore muito as coisas.  Em  muitos casos,
as pessoas não conseguem se entender e além de brigar, trocar ofensas,
podendo chegar às vias de fato, muitas vezes acabam na Justiça ou até
mesmo na delegacia. São questões pequenas, mas que tomam proporções
enormes",afirma Márcio Rachkorsky,advogado especialista em condomínios.

Acontece que o exercício da paciência não é simples, especialmente
quando você é acordada à uma da manhã com a 5ª Sinfonia da Tati Quebra
Barraco, num volume tão "singelo"  que  não  é difícil  materializar a
funkeira no seu quarto,
cantando "na madrugada, boladona". "A história mostra diversos exemplos
de dificuldade no convívio entre parentes, funcionários de uma mesma
empresa, vizinhos e até entre países próximos. Viver em sociedade requer
habilidades que nem todos possuem plenamente desenvolvidas", afi rma o
psicólogo e professor Luciano Leite. Mas que raios de habilidades são
essas? O psicólogo responde: "Saber respeitar o espaço do outro e pensar
coletivamente são atitudes de pessoas que possuem algo raro nos dias de
hoje:
empatia e solidariedade".
Segundo o psicólogo paranaense Márcio Roberto Regis, especialista em
psicologia clínica comportamental, "muitas pessoas enxergam o outro como
uma incógnita,'o estranho', diferente, por mais que sejam vizinhos de
porta. Criam rótulos e ideias irracionais sobre o outro. Essa falta de
esforço em relacionar-se com o vizinho é cômoda. É um comportamento de
esquiva em relacionar-se, por medo de alguém que nem representa ameaça",
esclarece.
Coquetel explosivo
Segundo levantamento feito pela Polícia Militar de São Paulo em dezembro
de 2008,12% das 35 mil chamadas diárias ao 190 tratam-se de confl itos
entre vizinhos, número bem mais alto do que as queixas relacionadas ao
trânsito, que corresponde a 2% dos chamados. Na câmara de mediação do
Sindicato  das  Empresas de Compra e Venda, Locação e Administração  de
Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo(Secovi-SP), as brigas
entre vizinhos representam 45% dos atendimentos.
"Se juntarmos vida agitada com estresse e a falta de amizade, está feito
o coquetel explosivo",resume Rachkorsky. E Márcio Roberto Regis afirma
ainda que "o desgaste seria bem menor se os moradores compreendessem que
erros não são sinais de fraqueza, mas fruto de um aprendizado na convi-
vência em sociedade." E já que não dá para simplesmente mandar guinchar
a casa ao lado para bem longe da sua, que tal recorrer à cartilha da
civilidade entre vizinhos e tentar resolver as diferenças na base do
bom e velhodiálogo? Algumas dicas dos especialistas também podem te dar
uma luz.

Por dentro das regras

Para quem mora em condomínio é importante conhecer bem todas as regras:
os direitos, deveres e obrigações. Para isso é preciso ler com atenção
a convenção de condomínio e o regulamento interno.

Exercício de mudança

Se você vai se mudar de casa para condomínio, faça um intenso exercício
mental de adequação à nova realidade. Vá se conformando que existem
muitas regras, que haverá uma convivência mais próxima com os vizinhos
e o respeito ao próximo é fundamental.

Esteja presente

Participe das reuniões de condomínio para que as pessoas se acostumem
com as discussões coletivas e comecem a pensar menos de forma individual.

Aproxime-se

Faça amizade com os vizinhos. Assim, quando surgir um problema, será
resolvido com serenidade, sem a necessidade de processos, advogados
ou delegacia. Quando há proximidade entre os vizinhos tudo fi ca mais
fácil.Sem contar que você nunca sabe quando vai precisar de uma xícara
de açúcar, não é?

Campeão de reclamações

Fique atenta a pequenos barulhos do dia a dia que a gente nem sonha que
incomodam nossos vizinhos: salto alto no piso de madeira, liquidificador
logo de manhã, criança correndo pela casa, móveis sendo arrastados...

Seja gentil

Varrer e recolher seu lixo da calçada (para não "voar" para a calçada do
vizinho), cumprimentar na saída do portão - ou portaria -, oferecer ajuda
com sacolas, são atitudes simples que não doem nada e com toda a certeza
fazem diferença na maneira como o vizinho a enxerga e, portanto, no seu
convívio com ele.

 
 
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